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Prof. Sacadura

# 46

Protesto

maio/2008

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Frases do Daniel


                                   

DIÁRIO ... fluxos intermitentes de devires algures!

 

... ou escolhas quânticas de mim mesmo!

Jack London

   

  Jack London tem um pequeno conto intitulado "A Praga Escarlate". Ali, doente de um vírus que vai lentamente paralisando o corpo da ponta dos pés até o coração, a humanidade é dizimada em pouco tempo. Apenas alguns homens e mulheres sobrevivem e andam errantes pelos vastos territórios e se vêm obrigados a recomeçar a existência como seus antepassados que viveram nos primórdios da humanidade. Um velho, que sobreviveu, fala para seus netos como a vida era antes da peste ter dizimado os homens e como ele e um punhado de sobreviventes recomeçaram a civilização. Então, no final da narrativa, o velho diz: "A pólvora vai vir. Não há nada que impeça... É a mesma história a se repetir sempre. A população cresce e entra em luta. A pólvora permitirá ao homem matar milhões de pessoas e, só assim, com tiros e sangue, a nova civilização, em algum dia remoto, vai surgir. Da mesma forma que a antiga civilização acabou, a nova também vai passar. Pode levar cinqüenta mil anos para se estabelecer, mas depois acaba. Tudo acaba. Só ficam a matéria e a força cósmica, sempre em fluxo, a agir, reagir e trazer os tipos eternos: o padre, o soldado e o rei. Da boca dos bebês vem a sabedoria de todas as épocas. Uns lutam, outros governam, há os que rezam. E todo o resto trabalha duro e padece terrivelmente enquanto, sobre seus corpos sangrentos, erigem-se de novo, e para sempre, a beleza arrebatadora e o fascínio incomparável da organização civilizada. Tanto faz destruir os livros guardados na caverna... Ficando ou desaparecendo, todas aquelas verdades serão descobertas; todas as mentiras, vividas e passadas adiante. Qual é a vantagem...". O que sempre me atormentou foi como ser diferente, como fazer diferente, como impedir que a história fosse sempre escrita pela bestialidade insana dos homens. Para quê? Por quê? Afinal o final é inelutável, como a praga de Zeus sobre Prometeu cujo fígado se renova para ser devorado às bicadas pelos corvos!

   Não por acaso, acredito, pego no "A consciência de Zeno" de Italo Svevo. Folheio a esmo, relembro passagens há muito lidas, e vou subconscientemente à última página. O fim de uma narrativa de vida contra a análise psíquica termina assim: "Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, cheguemos a retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme e ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades". Escrito em 1938, foi um belo prenúncio do que viria nos anos imediatamente seguintes. Mas a bomba não foi colocada no centro da Terra, e sim sobre ela. Então, os parasitos se fortaleceram e as enfermidades redobraram de tamanho e poder. Em 1938 não existia o complexo industrial a submeter a vontade humana através de drogas químicas - a análise era mais pura, um verdadeiro embate entre idéias. Hoje qualquer idéia do analista faz sentido diante do sem sentido das drogas que ele receita para o seu paciente!

  Acho que muitos de minha geração leram "O Alienista". No tempo em que as escolas eram sérias coisas assim nos obrigavam a ler. Claro, nem sempre entendíamos tudo, menos ainda a crítica psico-social de Machado de Assis. Mas algo ficava em nós - ainda que fossem uns poucos, fazia toda diferença -, algo que sempre podemos resgatar ao longo da vida, como a cada vez mais contundente crença que a normalidade e a insanidade é uma questão estatística. Do lado em que estiver o maior número então aí estará o que deve ser considerado como normal! Que o digam todos os insanos que ousam renunciar ao comodismo da verdade coletiva. Pelo menos em seu conto Machado de Assis restabelece a verdade quando o médico alienista reconhece que ele é que é o doente mental no momento em que alienou tantos que só ele era a minoria, e assim ele que era o indivíduo suspeito a ser trancafiado e tratado. Mas a modernidade técnico-científica que o autor crítica precisa de bodes-expiatórios a sacrificar no altar celestial: afinal o que pode dar status de normal à existência humana atual senão a minoria que se destaca como "anormal" por sua desobediência ética?

      Como o jovem Vassíliev no conto de Tchekhov (Uma Crise), que levado pelos amigos a um prostíbulo, desabafa consigo mesmo: "Como tudo é pobre e estúpido! Em toda esta miuçalha que vejo agora, o que pode tentar um homem normal, incitá-lo a cometer o terrível pecado de comprar por um rublo uma pessoa viva? Eu compreendo qualquer pecado cometido por causa de brilho, beleza, graça, paixão, gosto, mas o que existe aqui? Em prol do que se cometem aqui pecados? Aliás... não se deve pensar!".

 

          Poesia UNIGALERA™
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  VAMOS INDO, OBRIGADO... MENOS OBRIGADO!

 

  Dostoievski: "Somos capazes de tolerar tudo, somos os únicos entes criados capazes de se afazer a isso... Talvez tal conceito seja a melhor definição cabível ao homem!"(Recordação da Casa dos Mortos). Mas também às vezes nem tudo! Muitas vezes por muito pouco "insuportamos" tudo! Anos atrás uma professora me disse: "Engolimos vários crocodilos e engasgamos com uma lagartixa!" Talvez devesse olhar se os diários de meus colegas estão em dia!?

  O livro que nem queria publicar parece que encontrou refúgio. Vamos aguardar... Mas que sucesso pode ter algo tão pequeno e que elege os outros "selvagens-civilizados" como paradigma para uma humanização sócio-jurídica de nós "civilizados-selvagens"? De qualquer forma sempre parece um sonho realizado, como um filho saído de nossas entranhas - não dá retorno financeiro mas alimenta nossa auto-estima! Até sua maioridade! Então descobrimos como já não nos aquece a alma. E partimos para outro. Mas na vida em geral não podemos sair por aí fazendo filhos... Nem livros!

  E leio no jornal que o autor de "Canto dos Malditos" está na miséria, passando fome e morando num quarto cedido por uma alma caridosa, que chama de amigo. Dorme num colchão velho sobre um tapete puído, está com câncer de fígado por causa dos remédios que toma para se livrar dos demônios acumulados durante o tempo em que ficou internado em um manicômio. Foi com base nesse romance que se fez o filme premiado "Bicho de Sete Cabeças"! O mundo: alguém me repassa um e-mail onde o jornalista do sul se pergunta:"Do que somos feitos? Que parte do inferno nos constitui?" Assassinamos crianças a todo instante!

  Lá dos lados das minas gerais alguém me escreve sobre a sociologia jurídica. Exulto, acredito, mas não satisfaço, eu acho, as expectativas: não tenho as respostas para os exercícios. Não as tenho porque não as devo ter, porque não existem. Ah!, as verdades, sempre as verdades... Lembro-me do homem feito de barro, o Golem: ele se chama Emeth, Verdade; tirando-se uma letra fica Meth; Está morto. Então: a verdade seria aquilo que ao ser descoberto deixaria aparecer a morte, ou: não valeria mais a pena viver (a Cabala de Scholem). Mas, como não tenho a verdade, a resposta do meu contato não é a verdade... E não posso fazer nada!

  Uma mulher na França apareceu morta em seu apartamento depois que o Supremo tribunal de Justiça daquele país indeferiu seu pedido de eutanásia assistida. Sofria de câncer no rosto, o que a tinha deformado totalmente. Para agravar sua situação não podia tomar sedativos porque era alérgica. Na minha cabeça: alguém diz que liberdade sem vida não existe; existe vida sem liberdade? Como me olhar no espelho? Como ver a "luz" que há nesse rosto desfigurado pela doença e pelo sofrimento? Como acreditar (como Swift) que esse aí na frente, no espelho, não sou eu?!

  Sem palavras. A propaganda. Guardei esta imagem por meses. E pensar que, assim como as cobras, todos nascemos mulher!

 

 

  

 

 

 

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Roland Barthes


             

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