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POESIA, A UM TEMPO A LÍNGUA DA ALMA E SEU FAROL! |
O homem está para a imortalidade na direta proporção em que permanece crente ser possível deixar o sonho - e a imaginação da utopia - para seus pósteros (outubro/2003)
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Eliot Nietzsche Espanca Pessoa Anjos Cardenal Brecht Ashbery Lorca Loureiro Kafka MuriloAraújo Neruda Drummond Borges Maiakóvsky Camões Baudelaire Shakespeare Bocage
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Sonetos Clássicos
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava:
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos;
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Bocage
Os Amores
Abril Cultural, São Paulo: 1983 ![]()
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Como imperfeito ator que em meio à cena
O seu papel na indecisão recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita;
Também eu, sem confiança em mim, me esqueço
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me enfraqueço
Rendido ao peso do poder de amar.
Oh! sejam pois meus livros a eloqüência,
Augures mudos do expressivo peito,
Que amor implorem, peçam recompensa,
Mais do que a voz que muito mais tem feito.
Saibas ler o que o mudo amor
escreve,
Que o fino amor ouvir com os olhos
deve.
William
Shakespeare
Sonetos
Abril Cultural, São Paulo: 1981 ![]()
Shakespeare tem um lado menos conhecido pelo grande público, o lado da poesia. Sobre o autor nada a comentar, sobre sua poesia idem. Ainda por cima de todos os dissabores da "vida viva", como Dostoiévski dizia, ainda além dos vincos profundos do rosto, por virem, ainda entre as mechas dos cabelos, que foram, o amor. Não o amor das coisas e dos seres, mas o amor que conduz o ator neste palco efêmero e sombrio, qual o farol a sussurrar: Vem, faça valer a pena!
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Os restos da Amazônia ou deslenda rural - III
Senhor,
porque me abandonaste
aos que me crucificam
em minha terra
em meu salário
em minha fome...
Senhor,
por que me abandonaste
aos que lançaram dólares
em minha terra
em meu salário
em minha fome...
Senhor,
por que me abandonastes
aos que me amortalharam
em minha terra
em meu salário
em minha fome...
Tomai e comei
este é meu corpo
revivido em lucro e latifúndio.
Tomai e bebei
este é meu sangue
revivido em ouros e minérios.
Comei e bebei
este é o meu povo
revivido em braço e mais-valia.
Amazônia! Amazônia
Quem te ama?
Nas quebradas do silêncio
- capoeira, mato adentro, terras do sem-fim -
uma cunhã violada cava a cova
e enterra o Uirapuru baleado por grileiros
que com posseiros disputavam a terra,
e ouve uma canção de consumo em videoteipe...
João de Jesus
Paes Loureiro,
Poesia vol.1 (Obras reunidas).
Escrituras, São Paulo: 2001 ![]()
"A obra de João de Jesus Paes Loureiro pode ser vista como uma larga narrativa, uma vasta cartografia, um imenso mural, relativo ao muito do que foi e do tem sido a Amazônia, Aí se desenham as realidades e os mistérios, as lutas e as ilusões, as conquistas e as frustrações, as lendas e os mitos da Amazônia. Aí está a Amazônia vista em toda a sua singularidade, simultaneamente como momento da nacionalidade, emblema do Novo Mundo, enigma do planeta Terra, fragmento da Humanidade" (Octavio Ianni).
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Lamentações de um Ícaro
E na Terra sempre o rufião
É feliz, sereno e nutrido;
Quanto a mim, meu peito é rompido
De abraçar as nuvens em vão.
Somente é graças aos faróis
Que reverberam muito além,
Que os meus olhos lassos só vêem
Vagas recordações de sóis.
Em vão eu quis descobrir a arte
De meio e fim do céu achar;
Sob eu não sei que ardente olhar
Sinto que minha asa se parte;
Sonhando o belo que tortura
Eu não terei a honra, ao que cismo,
De dar o meu nome ao abismo
Que há de ser minha sepultura.
Charles
Baudelaire,
As flores do mal.
Abril Cultural, São Paulo: 1984 ![]()
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Soneto
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.
Luís Vaz de
Camões,
Versos e alguma prosa.
Moraes Editores, Lisboa: 1977 ![]()
Em 10 de junho comemora-se o dia de Luís Vaz de Camões (1524-1580), que também já foi o dia de Portugal (até a revolução dos cravos!). Recentemente, em entrevista na GloboNews, a emérita professora da USP de literatura portuguesa, Cleonice Bernadinelli, nomeou Camões como a "voz maior" da nossa língua. Com raras exceções, só conhecemos (quando conhecemos!?) Camões por sua obra imortal e universal de "Os Lusíadas". Mas Camões escreveu mais, muito mais, e tão majestosamente como sua obra maior. Prova disso é este Soneto a alguém amado que "partiu" prematuramente, publicado em Lisboa em 1595, e que meu pai repetia-me várias vezes quando era criança: talvez presságio pela "viagem" igualmente prematura de minha mãe para um plano superior de luz intensa, aos 53 anos.
JMSR/ julho de 2007
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Comumente é assim
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isso é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
Homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
Amor floresce, floresce,
e depois desfolha.
Vladímir
Maiakóvsky,
Vida e Poesia,
Martin Claret, São Paulo, 2006 ![]()
Em 14 de abril de 1930, Maiakóvsky suicidou-se com um tiro. Foi mais uma vítima da burocracia totalitário do stalinismo. Poeta revolucionário: revolucionário antes de ser poeta, poeta antes de saber que a poesia só pode ser revolucionária. Absorvido, vilipendiado, exaustivamente recomeçado a cada poema, Maiakóvsky é um dos expoentes da cultura do século XX, em muitos sentidos e amplos momentos, já pós-moderno! Com um expressionismo simples possuía uma crença inabalável de que as massas, o povo, pode e deve entender e ter acesso à cultura. Isto era insuportável para os "engomados" tecnocratas do estado soviético. Para estes, a poesia de Maiakóvsky em seu "concretismo", obviamente, transfere o "amor" e a "arte", como formas de desalienação e "revolução permanente", para as ruas, as vielas, as passagens, as praças, os becos, os botecos, os prostíbulos, as fábricas, as escolas, os escritórios, e denuncia esse "Reunismo" (um de seus poemas mais belos e lúcidos) esvaziante e homicida dos administradores da cultura. Logo após sua morte, Leon Trotsky escreveu o seguinte: "Quando ele liquidou suas contas, tanto no plano pessoal quanto no político, e movimentou seu barco, os representantes da literatura burocrática, aqueles que estão à venda, exclamaram: "inconcebível, incompreensível". Demonstravam, assim, que não compreendiam tanto o grande poeta Maiakóvsky como as contradições da época. Maiakóvsky não se tornou nem podia tornar-se o fundador da literatura proletária pela mesma razão que não se pode edificar o socialismo num só país. Nos combates do período de transição, ele era o mais corajoso combatente do verbo, e tornou-se um dos mais indiscutíveis precursores da literatura que se dará à nova sociedade".
JMSR/ Fevereiro de 2007
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Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível.
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho que anteontem à noite sonhaste.
Esse homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelações, o homem que erigiu a primeira pirâmide, o homem que escreveu os hexagramas do Livro das Mutações, o forjador que gravou runas na espada de Hengist, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Léon, o livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu no Ílion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, em barcos, na árdua solidão, na alcova do hábito e do amor.
Um só homem fitou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar o frescor da água, o gosto das frutas e da carne.
Falo do único, do uno, do que está sempre só.
Jorge Luis
Borges
In Obras Completas II
Globo, São Paulo, 1999
![]()
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital
da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta
argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores
da literatura mundial.
"Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade
e as limitações do ser humano, nos coloca diante de reflexões nas quais, com
freqüência, está presente o nosso próprio destino." (Miguel A. Paladino). Para amar,
apreciar e divinizar, não Borges, mas o Homem, esse único Homem, que nem sempre
se apresenta em trajes de gala, mas que igualmente não pode fugir dessa matéria
cósmica e divina. Caos e ressurreição!
JMSR / Dezembro de 2006
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| 1
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? |
2 Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. |
| 3
Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pela das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
|
4 Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. |
| 5 Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, foram publicados. |
6 Crimes suaves,
que ajudam a viver. Ração diária de erro, distribuída em casa. Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal. |
|
7
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. |
8 Uma flor nasceu
na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. |
|
9 Sua cor não se percebe. |
10 Sento-me no
chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado da montanha, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. |
Carlos
Drummond de Andrade
A rosa do povo
Record, 23ed., Rio de janeiro:
2001
![]()
PS: Nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, Drummond conseguia, a um só tempo, ser Chefe de Gabinete do ministro Gustavo Capanema, do Estado Novo, e usar suas palavras para destruir o capitalismo. Do gabinete ministerial, saiu direto para a condição de simpatizante do Partido Comunista Brasileiro. Agnóstico, conseguia clamar aos céus uma ajuda aos irmãos necessitados numa prece bem brasileira: Meu Deus,/ só me lembro de vós para pedir,/ mas de qualquer modo sempre é uma lembrança./ Desculpai vosso filho, que se veste/ de humildade e esperança/ e vos suplica: Olhai para o Nordeste/ onde há fome, Senhor, e desespero/ rodando nas estradas/ entre esqueletos de animais. Mais belo do que o decantado autor de "E agora José..." é a náusea interior daqueles que só podem - sua sina - ver o mundo com os olhos da alma: e vêem - pura maldição - a alma das coisas, inclusive os homens.
JMSR / Outubro de 2006
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[...] Não é isto o
“sentido” –
Este pouco de minha vida que posso ver – que me responde
Como um cão, e abana seu rabo, embora agitação e fidelidade sejam
Quase tudo que jamais expresso? O que jamais fiz eu
Para querer divagar sobre algo mais, uma explicação
De como eu me comportava, por exemplo, quando saber pode ser esta
Sublime aparência de arrebatamento, como a praia de um lago no deserto
Resplandecendo com o pôr-do-sol? De modo que se aprouver a todas as minhas
Construções.
Desmoronarem, eu terei ao menos tido satisfação por elas, e sabido
Que não é necessário ser permanente para estar vivo,
Radiante, desconcertando com o encanto de suas boas maneiras.
PATOLINO EM HOLLYWOOD
Ninguém realmente sabe
Ou se importa em saber se este é o todo do qual partes
Foram concedidas – outrora – mas ir caminhando para frente é
A tradição, mais do que a sua preservação. Esta palha para
Brincar os mantêm entretidos e ocupados enquanto a grande e
Mais vaga substância pode decidir o que deseja – que mapas, que
Cidades modelo, quanto espaço livre. A vida, a nossa
Vida ao menos, está no meio [..]
PAREGON
Ó míseras
criaturas! Por que tanto choro,
Tanto desolação nas ruas?
Não é o presente de carne, o que cada um de vocês
Em sua janela de caixilhos chanfrada deveria segurar
Nervosa até a sede e a morte última?
...
Nós precisamos da corrente
De entrar uns nas vidas dos outros, os olhos bem abertos, chorando.
John
Ashbery,
In John Asbery:
um módulo para o vento, de Viviana Bosi Concagh
Edusp, São Paulo: 1999
![]()
PS: Ashbery nasceu em Rochester, New York, em 1927 e se formou em 1947 na Harvard. O descobri por acaso nesse belo trabalho de doutoramento de Viviane Bosi. O que mais me chamou a atenção é ser homossexual e comunista... em um país como os E.U.A.!! Considerado por muitos como um expoente da poesia pós-moderna, nem sempre é fácil entender sua poesia, mas entre as linhas melancólicas retratando nosso tempo sem força e sentido, ali está - preste bem atenção - uma irresistível vontade de viver - no Outro.
JMSR / Setembro de 2006
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Não vou morrer. Saio agora
neste dia cheio de vulcões
para a multidão, para a vida.
Aqui deixo arrumada estas coisas
hoje que os pistoleiros passeiam
com a "cultura ocidental" nos braços,
coma s mãos que matam na Espanha
e as forças que oscilam em Atenas
e a desonra que governa o Chile
e paro de contar.
Aqui fico
com palavras e povos e caminhos
que me esperam de novo, e que batem
com mãos consteladas em minha porta.
AQUI TERMINO (Canto XXVIII)
Por fim, sou livre dentro dos
seres.
[...] E nascerá de novo esta palavra,
Entre os seres, como o ar vivo,
talvez em outro tempo sem dores,
e da solidão acurralada
sem as impuras fibras que aderiram
saio para a multidão dos combates,
negras vegetações em meu canto,
livre porque em minha mão vai a tua mão,
e outra vez nas alturas estará ardendo
conquistando alegrias indomáveis.
meu coração queimante e estrelado.
Pablo Neruda
Canto Geral
Difel, São Paulo: 1979
![]()
Em 1949, com 45 anos de idade, Pablo Neruda terminou quiçá sua obra maior "Canto Geral". É poesia dolorosa e amargurada que conta a epopéia dos povos latino-americanos desde antes de Colombo até o massacre permanente do imperialismo dos colonizadores - os de outrora, de além mar, e os de hoje, ditadores sanguinolentos disfarçados e vendidos aos interesses hegemônicos, ainda de além mar... Ontem como hoje, ainda precisamos de Neruda para ressuscitar a coerência e a ética da libertação que cotidianamente nos querem fazer esquecer. Neruda canta, ainda hoje, a decência e liberdade de todos nós, especialmente os latinos-americanos.
JMSR / Julho de 2006
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| AGONIA
Os cilícios das dores - os cilícios -
eis a norma de bronze do meu culto! Venha o choque moral, profundo, heróico,
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POBREZA
Louvo o dinheiro - esse útil soberano. |
ESPERANÇA
Noite.
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Murilo Araújo
Obras Completas:
Carrilhões
Pongetti, Rio de Janeiro: 1960
![]()
Em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna, o autor mineiro publicava seu primeiro livro de poesia. Em muitos livros especializados aprece como autor pós-modernista, tal a profunda inquietação com o homem deste tempo. Nisso, nosso autor, quase um desconhecido do público, se compara aos grandes poetas iconoclastas críticos da modernidade, como Eliot, Pessoa ou Kafka (nesta página). A poesia é universal em sua linguagem de imagens metafóricas; por isso mesmo nos sentimos tomados pelas "verdades" angustiantes contemporâneas do poeta Murilo Araújo, brasileiro, nosso, em português! Nasceu em 1894 e faleceu em 1980. A obra é imortal!
JMSR / Janeiro de 2006
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- "Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia
mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava
correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à
direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão
depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a
ratoeira para a qual eu corro."
- "Você só precisa mudar de direção", disse o gato e devorou-o.
Franz Kafka
Narrativas do espólio (1914 -
1924)
Companhia das Letras, São Paulo:
2002.![]()
Kafka, o autor de Metamorfose e de O Processo, nasceu em Praga ( República Tcheca) em 1883 e morreu na mesma cidade em 1924. Considerado um dos mais brilhantes escritores do século XX, inspirando tantos escritores, ensaístas, poetas, dramaturgos e roteiristas, Kafka nos transporta sempre aos limites da existência humana. Caminhos inusitados, difíceis de serem trilhados, tanto pela obrigatoriedade de desvendarmos as pistas deixadas ao logo do caminho, pois nem sempre a trilha e os obstáculos são visíveis, como pela própria elaboração de um realismo fantástico que extrapola, ainda que apenas aparentemente, o cotidiano, apesar de, no entanto, ser isso mesmo: um abissal mergulho nas noites enegrecidas perpétuas do cotidiano. Não é fácil ler Kafka; é impossível deixar de o ler!
JMSR / Julho de 2005
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(..)Os mestres mostram aos
meninos
uma luz maravilhosa que vem do monte;
mas o que chega é uma reunião de cloacas
onde gritam as escuras ninfas da cólera.
Os mestres apontam com devoção as enormes cúpulas defumadas;
mas debaixo das estátuas não há amor,
não há amor sob os olhos de cristal definitivo.
O amor está nas carnes dilaceradas pela sede,
na choça diminuta que luta contra a inundação;
o amor está nos fossos onde lutam as serpentes da fome,
no triste mar que embala os cadáveres das gaivotas
e no escuríssimo beijo pungente embaixo das almofadas.
Mas o velho de mãos translúcidas
dirá: Amor, amor, amor,
aclamado por milhões de moribundos;
dirá: Amor, amor, amor,
entre o tecido de seda estremecido de ternura;
dirá: Paz, paz, paz,
entre o ruído de facas e de dinamite;
dirá: Amor, amor, amor,
até que se tornem prata os seus lábios.(..)
Federico Garcia Lorca
Duas Odes
Obra Poética
Completa. Martins Fontes, São Paulo:2002
![]()
Lorca foi um poeta que gostava de desenhar suas poesias - arte de letras e linhas a demonstrar a incognoscível e imprescritível condição humana. O poeta vanguardista e o ativista político a denunciar, contudo, os horrores dos podres poderes dos homens, e sua insanidade diabólica, em nome do quê?, afinal em nome do quê? Assassinado covardemente, em 1936, pelo fascismo de Franco na Espanha, continua vivo em sua poesia viril: uma coragem que alimenta a mísera existência dos homens.
JMSR / Outubro de 2004
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Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma
sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles
que atravessaram
De olhos retos, para o reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T.S. Eliot
Os Homens Ocos
Poesia, 5a. ed., Nova Fronteira, Rio de
Janeiro:1981
![]()
T.S. Eliot, autor anglo-americano (nascido nos E.U. optou pela nacionalidade inglesa), é um dos mais consagrados poetas do início do século XX. Sua poesia só pode ser sentida: não basta ler! Para entendermos a derradeira viajem do homem moderno ao submundo de seu ser vazio, esvaziado pelas opções e conquistas da inteligência, precisamos sentir a nós mesmos e, só então, talvez pretensamente, reconquistarmos algo de nós mesmos, de nossas almas, de nossos espíritos. Mas apenas algo; a substância mais preciosa está perdida para sempre dentro do holow men!
JMSR / Julho de 2004
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No sul
(Das Canções do Príncipe Livrepássaro)
Eis-me suspenso a um galho torto
E balançando aqui meu cansaço.
Sou convidado de um passarinho
E aqui repouso, onde está seu ninho.
Mas onde estou? Ai, longe, no espaço.
O mar, tão branco, dormindo absorto,
E ali, purpúrea, vai uma vela.
Penhascos, idílios, torres e cais,
Balir de ovelhas e figueirais.
Sul da inocência, me acolhe nela!
Só a passo e passo - é como estar morto,
O pé ante pé faz o alemão pesar.
Mandei o vento levar-me ao alto,
Aprendi com pássaros leveza e salto -
Ao sul voei, por sobre o mar.
Razão! Trabalho pesado e ingrato!
Que vai ao alvo e chega tão cedo!
No vôo aprendo o mal que me eiva-
Já sinto ânimo, e sangue e seiva
De nova vida e novo brinquedo...
Quem pensa a sós, de sábio eu trato,
Cantar a sós - já é para os parvos!
Estou cantando em vosso louvor:
Fazei um círculo e, ao meu redor,
Malvados pássaros, vinde sentar-vos!
Jovens, tão falsos, tão inconstantes,
Pareceis feitos bem para amantes
E em passatempos vos entreter...
No norte amei - e confesso a custo -
Uma mulher, velha de dar susto:
"Verdade", o nome dessa mulher.
Friedrich Nietzsche
Quatro Poemas
Os Pensadores. Abril, São Paulo:
1983
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A Nietzsche costuma-se atribuir todos os adjetivos, bons e maus, mas todos veementes: mas não o de poeta. Poucos sabem desta vinheta do filósofo mais "categórico" de nosso tempo. Como o pai que repreende por amor, como o professor que se exalta por extremada dedicação, aqui Nietzsche chama à atenção merecida quando se precisa falar da Verdade aos jovens. Ah!, a verdade... quem a quer saber? Os jovens pássaros?
JMSR / Abril de 2004
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Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Florbela Espanca
Livro de Mágoas
L&PM Pocket, Porto Alegre: 2002
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A poesia de Florbela Espanca é profunda, de uma profundidade que só a alma desprotegida, incompreendida e perseguida pode olvidar traduzir em versos. Lembra-nos a eterna ignorância dos homens e sua relação com a fatídica busca da felicidade. Florbela é o Amor que se angustia em todas as experiências da alma em sua busca atroz. Rompe tabus, barreiras, destrói preconceitos, desafia os homens rudes, revoluciona a tradição: só não pode deixar de acreditar no AMOR!
JMSR / Setembro de 2003
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POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco,
tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para
tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, perdido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas
coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência,mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa
Poemas Escolhidos
Biblioteca Ulisséia, Lisboa: 1985
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A poesia de Fernando Pessoa é eterna; ela fala direto dos mitos e mistérios eternos, apesar da racionalidade, da existência humana, e da total impossibilidade de entender o porquê das coisas e de nós mesmos. Neste poema famoso vai, ao mesmo tempo, o ínfimo da condição e a sua soberba.
JMSR / Julho de 2003
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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto
dos Anjos
EU/ OUTRA POESIA
Círculo do Livro, São Paulo,
1981
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Este autor brasileiro, discípulo de Fernado Pessoa e de Charles Boudelaire, ainda é desconhecido de muita gente. Sua poesia mortífera, fantasmagórica e mordaz, nos faz lembrar a covardia e a vileza humanas, principalmente a arte sempre pronta da traição.
JMSR/ Junho de 2003
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Palavras falsas choveram sobre nós
Sim, temos tido um assalto de palavras.
O pão da vida foi-nos reduzido à metade
Os discursos do demônio chamado Ah Uuuc, O Sete-Mortes.
Agora nos governam os coiotes
agora os lagartos estão mandando.
Toma terras Hapai-Can, Serpente
devoradora.
Direis: naquele Katún houve subdesenvolvimento etc...
O terrível Ayin, Lagarto.
E sobre as nossas cabeças, os urubus da morte...
Nesta época de Senhores Plebeus...
Palavras falsas. Palavras de loucura.
Tivemos o assalto das línguas ferinas (os inimigos de nossa comida)
Augúrio de péssimos governos...
Dizemos: talvez tenham pena do milharal
Despotismo.
Aproveitadores.
... enquanto isso os Monos-senhores...
As raposas Mordedoras vão de choça em choça
arrecadando impostos.
Usurpando o mando,
os fecundados em mulheres-da-vida (os
filhos das putas).
Quando venha a troca de poder
quando venha o governo de muitos
grandes serão suas xícaras
grandes os pratos em que comam em comum
então o Katún será consolidado
o Katún da Árvore da Vida.
Já vejo a detenção dos generais, levados presos.
Escrevemos no Livro para os anos futuros.
Os poetas, os que protegemos o povo com as palavras.
As profecias se enganarão
se tiverdes desprezo por elas.
Um Katún Não-Violência,
Céus tranqüilos sobre as plantações do
povo
...no tempo da colheita do mel...
Então nos devolverão a choça formosa.
Em palavras pintadas está o caminho
em palavras pintadas o caminho que temos de seguir.
Olhai a lua, as árvores da selva
para saber quando haverá uma mudança de poder.
Que classe de trilha cultivaremos?
O meu dever é ser intérprete,
o vosso dever (e o meu)
é nascer de novo.
Ernesto Cardenal
As Riquezas Injustas
(Antologia Poética)
Círculo do Livro, São
Paulo:1977
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Nas lutas da América Latina por liberdade, Ernesto Cardenal foi o bispo que fez sentir a voz do povo debaixo da ditadura de Somoza na Nicarágua. O dever de cada um fica claro no final do poema. E isto é eterno!
JMSR/Maio de 2003
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Bem antes de sobre nós
aparecerem os bombardeiros
Eram já inabitáveis nossas cidades.
Canalização nenhuma nos livraria da imundice.
Bem antes de cairmos em
batalhas sem sentido
Ainda andando por cidades intactas
Nossas mulheres eram já viúvas
E nossos filhos órfãos.
Bem antes de nos lançarem
em covas aqueles também marcados,
Éramos sem alegria.
Aquilo que a cal nos corroeu
Já não eram rostos (não éramos nós).
Bertolt Brecht
Brecht, Poemas,
1913-1956
Ed. Brasiliense, São
Paulo:1986
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Em tempos de guerra e tanta falta de paz, o poesia de Brecht sempre se revela eterna, pelo menos enquanto os horrores causados pelos homens nos fazem pensar na razão de tudo isso.
JMSR/ Abril de 2003
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